Segundo o World Energy Outlook, a demanda por petróleo vai cair gradativamente até 2050
Idealizado pela Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o relatório World Energy Outlook (WEO) apresenta uma análise sobre a oferta e demanda global de energia em diferentes cenários, assim como as consequências das atuais metas climáticas e de desenvolvimento econômico.
Normalmente lançado em novembro, o relatório foi distribuído com antecedência para servir como um guia para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), realizada em Glasgow.
Como explica o próprio documento, a COP26 é uma reunião significativa para que os líderes mundiais apresentem novos e mais ambiciosos compromissos em comparação com o Tratado de Paris, assinado em 2015. Assim, o WEO procura trazer um panorama sobre os atuais compromissos feitos pelos governos até agora e o que isso significa para o setor de energia e o clima.

No Brasil, o cenário “net zero” também é conhecido como carbono zero ou carbono neutro, representando uma meta para que o saldo entre as emissões e remoções de carbono seja nulo. Para alcançar o net zero seriam necessárias novas políticas e demandas globais, que são abordadas no relatório WEO.
Neste ano, o documento afirma que o uso de biocombustíveis tende a crescer fortemente em todos os cenários até a próxima década. E, da mesma forma, a demanda por petróleo deve cair em todos os contextos definidos pelo instituto.
Além disso, o documento também analisou as novas possibilidades para combustíveis à base de hidrogênio, que seriam ainda mais sustentáveis do que os biocombustíveis atuais. Mas eles ainda precisam de mais incentivos e investimento, especialmente para que seus custos de produção diminuam e que esses novos combustíveis também possam chegar a um preço acessível em economias emergentes.
Queda na demanda por petróleo
Em todos os cenários analisados pelo WEO existe uma queda na demanda por petróleo. No Steps, a demanda excede os níveis pré-pandêmicos já em 2023 e alcançar um máximo de 16,53 bilhões de litros por dia em meados da década de 2030, para só então começar a diminuir gradativamente até 2050.
Já no contexto de APS, a demanda por petróleo atingiria o seu pico em 2025 e depois cairia para uma média de 159 milhões de litros diários. Já no cenário de NZE, a demanda chegaria a 318 milhões de litros por dia entre as décadas de 2020 e 2050.
O relatório aponta que houve uma boa recuperação na procura pelo óleo fóssil em 2021, mas que ela “não foi correspondida por uma mesma melhora no investimento em oferta”. Com isso, mesmo com alta pressão de preços, os gastos neste ano ainda devem ficar abaixo dos níveis vistos em 2019.
Segundo as análises do WEO, quase 98% da demanda de combustível líquido ainda é atendida pelo petróleo. Os 2% restantes correspondem a biocombustíveis tradicionais e uma parcela ainda menor dos avançados, que são produzidos a partir de matérias-primas não alimentares.
Mesmo com altos custos de produção, o relatório ressalta que em todos os cenários a demanda por biocombustíveis precisa aumentar, especialmente para zerar as emissões de carbono.
Um novo caminho para os biocombustíveis
A principal vantagem dos biocombustíveis, nos cenários analisados pelo relatório está no fato de que eles podem ser adotados com uma modernização com custo mínimo aos usuários finais: “O principal desafio para o futuro é mobilizar investimentos para desenvolver várias novas instalações de grande escala, diminuindo os custos de produção”.
Além da questão dos custos, o WEO coloca a limitada oferta de matérias-primas sustentáveis para sua fabricação como uma grande limitação dos combustíveis sustentáveis atualmente.
De acordo com as projeções, entre as décadas de 2020 e 2030, a demanda por biocombustíveis aumentará para algo próximo de 238 milhões de litros de petróleo equivalente por dia no cenário Steps. Ainda neste contexto, o consumo de etanol convencional, principalmente para carros domésticos, subirá mais de 397 milhões de litros de petróleo equivalente por dia. E o etanol convencional continuará a ser o maior biocombustível individual produzido até 2050.
A lacuna de implementação entre os cenários Steps, que seria o plano menos ambicioso, e o APS, que considera as metas já anunciadas, é menor em relação aos biocombustíveis. Isso ocorre devido principalmente às misturas mandatórias de biodiesel, com destaque para governos da América Latina e da Ásia.
Já no cenário ideal, de zero emissões, a demanda por combustíveis sustentáveis cresceria mais de 556 milhões de litros de petróleo equivalente por dia. Neste caso, os convencionais contribuiriam para parte deste aumento, mas a maior parte viria dos chamados biocombustíveis avançados, que representariam quase a metade da produção total já em 2030. Só o biojet seria responsável por 15% do combustível total da aviação em 2030.
Os biocombustíveis avançados, de acordo com a definição da WEO, seriam aqueles produzidos a partir de matérias-primas não-alimentares e capazes de reduzir significativamente as emissões de gases do efeito estufa ao longo do ciclo de vida quando comparadas as alternativas fósseis.
Essa definição difere da usada pelos Estados Unidos, onde os biocombustíveis avançados seriam aqueles capazes de reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 50% ou mais, quando comparado aos fósseis. É apenas neste caso que o etanol produzido no Brasil a partir da cana-de-açúcar é considerado avançado.
Outras possibilidades: hidrogênio
O relatório também abrange outras possibilidades para diminuir o consumo do petróleo nos próximos anos, com os biocombustíveis à base de hidrogênio, que contam com um baixo teor de carbono. Um desses componentes, a amônia, além de ser facilmente estocada como líquido, também poderia ser utilizada na geração de energia sem emissões de CO2.
Entretanto, o relatório aponta que existe uma série de obstáculos a serem superados para que os combustíveis à base de hidrogênio possam desempenhar um papel tão importante quanto os líquidos. Atualmente, eles têm “alto custos de produção, sofrem com infraestrutura limitada e podem envolver grandes perdas de energia entre produção e consumo”.
Para a fabricação de combustíveis à base de hidrogênio, existem seis projetos de demonstração em construção e outros 38 na fase de planejamento. “Existe também um grande número de projetos para produzir amônia, principalmente para uso como fertilizante, mas também para combustíveis”, informa o relatório.
Para 2030, seguindo o cenário Steps, a absorção global deste tipo de combustível ainda será limitada porque existem poucas políticas que apoiem seu uso. Já o APS prevê que, em 2030, serão consumidos globalmente 11,12 milhões de litros de petróleo equivalente por dia de combustíveis à base de hidrogênio para transporte. Apesar de ser uma quantia relativamente pequena, o relatório aponta que este progresso será crítico para um futuro sucesso desse tipo de combustível.
Para cobrir a distância entre os cenários de Steps e APS, o WEO afirma que precisariam ser feitos mais investimentos para reduzir o custo de produção e de transporte. Da mesma forma, seriam necessários novos equipamentos e veículos que comportem tal tecnologia.
Além disso, podem ocorrer algumas variações regionais para a produção deste combustível e, em alguns países, a importação deverá ser uma saída alternativa. Neste caso, o relatório aponta que o comércio internacional terá que agir em cooperação para garantir baixos níveis de emissão em toda a cadeia de valor.
O WEO explica que, no cenário NZE, o consumo de combustíveis à base de hidrogênio no setor de transportes aumenta para 95,39 milhões de litros de petróleo equivalente por dia em 2030, com a maior parte sendo usada no transporte marítimo.
Depois da década de 2030, no contexto Steps, a implantação dos projetos para fabricação de combustíveis à base de hidrogênio permanece baixa. Já nos APS e NZE, uma melhoria das políticas e novas intervenções regulatórias aconteceria ainda na década de 2020, o que ajudaria a reduzir o custo de produção e aumentar o uso depois de 2030.
Em ambos os cenários, grandes instalações de produção seriam desenvolvidas em locais ricos em energias renováveis. Neste caso, os combustíveis à base de hidrogênio seriam usados no transporte marítimo, na aviação e, também, ainda que em menor escala, em caminhões pesados. Porém, como aponta o relatório, “a eletrificação e uso de hidrogênio gasoso em células de combustível são os principais mecanismos para reduzir as emissões de caminhões”.
Ainda no NZE, a amônia seria responsável, sozinha, por atender a quase metade da demanda de energia de transporte em 2050.
Eletrificação de veículos
Considerando que os carros domésticos usaram mais petróleo do que qualquer outro setor em 2020, o WEO projeta que esta demanda aumentaria para cerca de 317 milhões de litros por dia no cenário Steps, até 2030. Depois desta década, o relatório aponta que é provável que 8% dos carros domésticos sejam elétricos e que, com o aumento da venda de veículos mais pesados, principalmente utilitários esportivos, compensaria algumas das reduções do uso de petróleo com o aumento dos carros elétricos.
No APS, a frota dos países com metas de neutralizar as emissões terão mais de 15% de veículos de passeio elétrico. No mundo todo, o petróleo usado em carros cairia 63,59 milhões de litros por dia entre as décadas de 2020 e 2030.
Já no cenário NZE, seriam feitos maiores esforços para transferir passageiros para outras formas de transporte e os carros elétricos corresponderiam a 20% da frota de veículos domésticos. Como resultado, a demanda por petróleo seria reduzida para 1,27 bilhão de litros por dia em 2030.
O instituto ainda aponta que, segundo suas análises, os investimentos em energia limpa no transporte devem aumentar quase oito vezes no cenário NZE até 2030. Isso ocorre especialmente para que possa acontecer a eletrificação nas economias que ainda precisam dos combustíveis fósseis.
Para completar, frotas mais pesadas também devem ser atingidas. “Melhorias em eletrificação e eficiência de combustíveis desempenham papel central no deslocamento do uso de petróleo no transporte de cargas”, afirma o relatório.
Mudar o comportamento é essencial
Além de trazer a importância de novos investimentos em áreas como biocombustíveis, o relatório WEO também ressalta que alcançar o patamar de zero emissões depende principalmente das escolhas feitas por empresas e pessoas.
Segundo o documento, elevar o nível de ambição climática, “requer mais dos consumidores do que apenas uma referência sistemática para comprar tecnologias limpas”. Assim, seria indispensável reduzir o consumo de energia e a pegada de carbono. Em cada cenário observado pelo relatório, essas mudanças de comportamento são consideradas contínuas, sejam regulamentadas por políticas públicas ou mesmo voluntárias.
No contexto do NZE, por exemplo, o WEO explica que a conduta dos consumidores tem papel fundamental para acelerar o processo de redução de emissões de carbono durante a década de 2030. Isso inclui a queda no uso contínuo de veículos à base de combustíveis fósseis. Em alguns casos, é o comportamento que vai fechar a lacuna de ambição entre os cenários de APS e NZE ainda em 2030.
Giully Regina – NovaCana
